um pequeno sol particular.

5.9.08

eu poderia ter permanecido sentada naquela mesma posição por quinze minutos ou treze horas. era difícil dizer, pois a espera geralmente se conta do momento em que é finalizada. a minha: nunca. eu estive lá por todo aquele tempo, fosse ele longo, curto ou mesmo inexistente. é mesmo possível que assim fosse, inexistente. também aquela cidade, aquele banco e aquela última tentativa frustrada de romper o silêncio.

mas precisávamos dele. fico recordando a forma como as coisas se sucederam e penso que sabíamos uma da outra muito mais do que as escassas palavras pareciam ns sugerir. toda essa falta de compreensão mútua refletia perfeitamente a incompreensão interna e, sobretudo, o medo da palavra certa. verdades, bem sei, podem doer. muito além da cidade, somos estrangeiras de nós mesmas, entende? por isso aquela delicada cena fez tanto sentido: o parque. um sorriso. outro. uma pequena afeição alheia. era tudo o que precisávamos, e buscávamos, incansavelmente, na nossa louca sede pelo recomeço, pelo esquecimento. e, assim, num pacto selado através do silêncio, jamais soubemos nada muito além da superfície.

da mesma forma como pouco descobrimos a respeito daquelas cidades as quais percorríamos debaixo do guarda-chuva amarelo nos infinitos dias chuvosos. por mais que tudo fosse cinza,sempre existiria nosso próprio pedaço de sol para nos levar em segurança a mais uma catedral,residência real, centro histórico ou parque. comonaquela primeira vez. i don't have an umbrella,may i go with you? e tudo era tão óbvio.

tudo foi tão óbvio durante a euforia do verão, as noites mal dormidas e a afeição delicada. sequer ousaríamos pensar que haveria um fim, era como se as cidades européias fossem se suceder infinitamente e nós permaneceríamos unidas pela fuga até que. e aí não havia nada; a única continuação era, justamente, a falta dela. existir, naquele tempo, era como sonhar acordada.

e eu fingira até o último instante não estar notando um lento e degradante despertar. primeiro a falta de dinheiro, que solucionamos dormindo em espeluncas cada vez piores, o que pouco importava enquanto houvesse o abraço dela durante a noite. de repente, no entanto, começamos a sentir tantas dores por causa dos colchões que já não nos abraçávamos. logo e seguida, o guarda-chuva amarelo ganhou um pequeno furo. e outro. e outro.

quando nos demos conta, precisávamos discutir a respeito de que faríamos durante o dia ou brigávamos pelo cobertor puído de nossas espeluncas. não era mais possíel fugir, obviamente. ainda restavam dois dias na cidade em que estávamos, os quais se passaram de maneira absolutamente hostil. acho que sempre fomos demasiado óbvias para nós mesmas, sabíamos exatamente o que aqueles dias dolorosos representavam.

discordamos quando precisamos escolher uma nova cidade, naturalmente. aquela fora a primeira - e única - vez, mas não houve espanto algum. concordamos com a diferença e aceitamos com uma forçada naturalidade e um pedido de desculpas velado. apenas seguimos, ainda que dessa vez eu retornasse ao início e ela escolhesse outro destino. na última noite, esboçamos um abraço final, que me foi ainda mais doloroso por dentro do que por toda a dor nas costas acumulada. precisávamos, a todo custo, daquele suave despedida.

quando acordei no dia seguinte, ela já estava de saída. mochila nas costas e o meu guarda-chuva amarelo pendurado da mesma forma como eu costumava colocá-lo na minha mochila. foi assim a última vez em que a vi. seus cabelos loiros presos num rabo-de-cavalo deixando um pedaço de sua nuca descoberta, de forma a me lembrar terrivelmente seu cheiro específico que me confortava nos passeios pelas cidades debaixo do guarda-chuva, por mais que o mundo parecesse cair sobre as nossas cabeças. e caía.

sempre quis saber exatamente o que passou pela cabeça dela no exato instante em que fechou a porta, pegou o trem, ou algo insignificante que equivalha a esses momentos figurativos das emoções. pensávamos estar fazendo exatamente o que devíamos, mas será que, ainda assim, ela ousaria imaginar o contrário? me pergunto, também, por onde andará nesses dias frios e desesperançosos; teria continuado mesmo até seu próximo destino? vezenquando ainda acredito na nossa semelhança e penso que não pode estar muito diferente de mim. então me arrependo e torço para que esteja melhor.

quanto a mim, voltei naquele dia à cidade inicial, comprei um novo guarda-chuva, embora não mais chovesse, e me dirigi ao ponto de início de tudo; o mesmo banco. com a cena reconstruída, esperei por um tempo insuportável o surgimento de um novo sorriso, um novo pedido. ali estava, inocente, achando que algo encontraria. não seria, no entanto, ela.

jamais fizemos juras de amor-eterno ou qualquer coisa que demandasse palavras grandes, nem sequer promessas de manter contato depois daquele tempo, do nosso tempo. mas ali, sentada naquele banco, notei que o meu silêncio era o máximo de mim que eu poderia oferecer a alguém; e ele era todo dela. por mais que nossa fantasia houvesse passado, agora eu tinha certeza de que ela era minha realidade. fosse para trazer um pouquinho de sol para os dias frios ou simplesmente sorrir aquele primeiro sorriso. me dei conta de que sempre seríamos nós, por mais que não houvesse as consecutivas cidades européias ou sequer as caminhadas. precisávamos apenas estar, ainda que estáticas. como eu, infelizmente, no momento em que ela se foi. sem um
movimento, sem uma palavra, seguindo nosso pacto silencios. restou, no entanto, o pensamento: may i come with you? e tudo era tão óbvio.

2 comentários:

Anônimo disse...

tão bonito. ~

su. disse...

já te disse.. gosto muito, muito desse texto. (: